sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ao gênio, com carinho.



"Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro".

SARAMAGO,José.“Cada vez mais sós”, in Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216



Difícil entender do que é feita a cabeça dos gênios. Mas há uma semelhança entre eles: a capacidade de ver sempre além, de enxergar o que algumas pessoas nunca verão, de entender que a vida nunca será explicada. Todos os meus escritores favoritos são vanguardistas, são meio loucos, não são politicamente corretos, são contestadores, realistas e, aí está a pitada mágica da genialidade, mesmo assim conseguem arrebatar a alma de quem os lê.

Saramago já estava no hall da imortalidade mesmo estando vivo, seus livros dizem tanto e abrem tanto a mente das pessoas que chega a doer. Aliás, a dor da melancolia portuguesa que ele ajudou a transformar em universal aliada à visão extraordinária de uma mente genial capaz de colocar no papel algo que mude a forma de pessoas enxergarem a vida é só uma das características desse escritor, jornalista, dramaturgo e poeta.

Perdoem-me a repetição de características, mas gênios não morrem todos os dias. O que Saramago fez pela literatura mundial e pelas pessoas que transformou já está imortalizado.

Apesar de saber que sua obra jamais deixará de ser ter o peso de sua genialidade, hoje o dia amanheceu mais triste. Não digo adeus nem até logo, digo que ele sempre fará parte de quem o lê porque ninguém permanece o mesmo após passar por Saramago.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Eu não sou do uhu!

Você acorda cedo no domingo sem muitos planos para o dia. Fica na cama pensando no que poderia fazer para otimizar a sua total liberdade de não fazer nada. O telefone toca. É um amigo convidando para um churrasco. Uhu!, você pula da cama animadíssima! Hoje é dia de comer tarde, ter no prato uma carne mal cortada e fora do ponto e beber cerveja quente. Não, obrigada, você diz. Do lado de lá, cogitam, o que te faz ser menos feliz que eles.

Ok, eu sei que um churrasco pode ser divertido, motivo para encontrar amigos, bater um bom papo. E esse é só um exemplo. Às vezes, eu gosto muito. Mas, às vezes, não. E não me convencem armadilhas emocionais politicamente corretas que te fazem crer que essas são obrigações sociais que você deve cumprir para... ser feliz.

Sinto nas pessoas uma certa obrigação de ser feliz. Uhu! é o lema. O mundo anda barulhento demais. Uma espécie de euforia compelida... quase uma histeria coletiva... que vai crescendo... e fica difícil prestar atenção em alguma coisa... fica difícil prestar atenção nas pessoas... Faz-se mais e sente-se menos.

Eu não sou do uhu!, não sou de matilha, nem de fazer “a social” e me entedio com todo-mundo-junto-o-tempo-todo. Mas entenda, não estou abatida, nem deprimida, não maltrato criancinhas, dou passagem na faixa de pedestres e cuido muito bem das minhas plantinhas.

Desculpem, é piegas, eu sei; mas não acho termo menos clichê para dizer exatamente isso: "triste é quem tem obrigação de ser feliz".

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Prefira o ogro

Mesmo num mundo com menos preconceito, muitos homens ainda não saíram do escurinho do armário. Mas tem um tipo de homem, que me deparo sempre e cada dia mais: ele é heterossexual convicto, nada gay, mas detesta mulher. Em vez de desejar a mulher, ele deseja a si mesmo, o que reflete na retina feminina.

Sabe que precisa de uma mulher, e até gosta de desfilar com aquela que ele considera privilegiada, mas pouco se importa com as emoções dela. É o cara que trata a mulher que o acompanha com desdém, até que apareça uma amiga dela ou dele. Aí ele se acende como se fosse árvore de Natal na Lagoa da Pampulha. Quer mesmo é fazer a social e depois correr para contar seus feitos para os amigos.

É monotemático na conversa. Só fala de carro. Só fala de golfe. Só fala de trabalho. Só fala dele. Ama um espelho. Aposta no físico perfeito, mas é emocionalmente um banana. Coloca-se como porta-voz , interrompe e fala pela mulher, mesmo quando o assunto são os projetos dela.

Ele curte sair com os camaradas, comentar a boa forma do Paulão, vai religiosamente à academia, mas nunca leu uma lauda. Lá no fundo, ele acredita que há um lugar muito especial, superior, reservado aos homens, e que as mulheres, nessa escalada evolutiva, estão lutando contra a própria natureza.

Fujam desse tipo. Ele é o príncipe encantado do Sherek. Prefira o ogro.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Eu te amo!


Eu nunca disse o quanto amei você. Ao contrário, fiquei calada e por vezes espanei o que estava sentindo. Medo de admitir que aquele amor era maior que eu e não cabia aqui dentro.

Eu também nunca disse o quanto desejei você. Os sonhos de uma vida ou de um amor adolescente. Ao contrário, fiquei em silêncio, sem esgostar todas as possibilidades de uma paixão para a vida toda, guardando sentimentos que deveriam ser vividos juntos, construídos juntos. Firmando e reafirmando as certezas de seguir em frente.

Eu pensava que o silêncio fosse dizer tudo o que sentia, de maneira delicada, sutil. Eu pensava que o silêncio, como um sopro, pudesse encurtar o tempo e trazer você de volta.

Preciso aprender a dizer.

"E hoje em dia, como é que se diz eu te amo?"

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Eu não te avisei

Na plataforma, o casal chega apressado ao guichê, o embarque já encerrado. Aturdida, ela faz perguntas, cogita hipóteses, parece sentir-se culpada pelo atraso. Em vão: o trem já partira. Desapontada, ela o olha com olhos piedosos. Implacável, ele condena: Eu bem que avisei!

Perdi a conta, nessa minha vida, da infância à maturidade, das vezes em que também fui atingida por um “Eu bem que avisei!”. Cale-se, escute e ainda corra o risco de ser considerado o arrogante, que não deu ouvidos aos avisos, o desobediente.

Não vou dizer que não me irrita essa inapelável sentença. Você não precisa me enxergar para me julgar, mas precisa me enxergar para me entender.

Para esses, eu estou bem aqui na frente, mas insistem em não me ver. Tudo bem, cada um enxerga o que quer. O problema é quando sem ter ideia de como sou, o que faço, onde estou, resolvem dar a visão deles sobre mim. Embora isso não faça sentido, porque não me enxergam, certo?

Explicando melhor: preferiria que me esquecessem, mas até para poder esquecer teriam que me enxergar. Entenda, por favor, que não é o meu desejo, mas se você que me lê vier a errar, falhar ou fracassar – possibilidade muito remota, bem sei – não, eu não te avisei.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Presente de aniversário

Bom...passada a tempestade que fez parte do meu inferno astral, respiro aliviada. Como disse a minha tia “essa era de Aquário não está sendo fácil”. Bem antes do meu sempre presente período nostálgico e melancólico pré-aniversário, veio a história da Bárbara, por quem tenho um amor de mãe, pois vi nascer, vi o primeiro sorriso, a primeira febre, os primeiros passos... Bárbara hoje está com 18 anos, o que significa que quando ela nasceu eu tinha 14 e a mãe dela ( minha prima ) 15. Dá para imaginar a revolução que foi isso em nossa família? E no hipócrita colégio de freira em que estudávamos? Minha prima Carolina é a mulher mais corajosa que conheço, enfrentou o mundo aos 15 anos por sua Bárbara. Não é a toa que deu esse nome à sua menininha: um nome forte, de guerreira. E, nestes últimos dias, essa menininha mostrou a força bárbara que traz em suas veias, e fez uma verdadeira guerra para continuar viva. Explico melhor: há cerca de 20 dias, minha prima levou sua filha ao Hospital Biocor com forte dor de cabeça e vômito, eles a internaram e fizeram vários exames para tentar descobrir a causa dos sintomas. Sugeriram dengue, virose, rota-vírus, e, mesmo contra as justificativas de minha prima, sugeriram até que ela levasse sua filha para se recuperar em casa. Porém, Bárbara não melhorava, os sintomas pioravam, a febre não cedia, apareceu uma taquicardia... resolveram levar o quadro da menina a sério e fizeram ultrassons: descobriram que ela estava com uma alteração estranha no fígado. Não era de se assustar? Mais piora, e aí 2 dias depois resolveram fazer um exame muito “sofisticado”, que acredito qualquer leigo no assunto já teria feito: um exame de urina – bingo!- a menina estava com uma infecção urinária. Como não foi detectada no prazo certo, essa infecção bacteriana tomou uma dimensão enorme. E então resolveram fazer um teste de sangue chamado PCR, o qual detecta uma proteína responsável por infecções e que, o máximo permitido para um ser humano tolerá-la seria 6, o teste de Bárbara acusou 360!! Correria: levaram a menina para o CTI com os 2 pulmões infiltrados e a bactéria espalhando-se pelo seu organismo por meio dos rins. O estado dela era gravíssimo, finalmente o Biocor colocou à disposição dela médicos competentes, entre eles o dr. Ivan, um médico excepcional que acompanhou Bárbara até que ela se recuperasse. Foram 4 dias no CTI e mais 9 (contando com a entrada dela no hospital) internada para que ela recebesse alta. No meio disso tudo, o sistema de saúde brasileiro mostrou sua falência, mesmo com plano de saúde particular, não havia apartamento disponível e minha prima teve que rodar a baiana para que depois do CTI ela fosse para um quarto, queriam deixar ela lá por mais tempo sem necessidade. Já não havia sido traumático demais? Nós, familiares, perdemos o sono, a tranqüilidade e só respiramos aliviados no dia em que ela recebeu alta. Minha prima quase surtou de tanto desespero. Eu, de longe, não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Bárbara é nossa 3ª geração, sempre foi para mim, símbolo do sonho de ser mãe e meu primeiro amor. Tenho por ela um amor sem tamanho, sempre brincava dizendo a ela que “odiava ser apenas sua prima de 2º grau”. Ela sabe que para mim ela é muito mais que isso. Hoje, fica o susto e a dor do que passamos, mas fica também o orgulho por uma menina que lutou contra uma poderosa bactéria, que pouco antes havia matado uma jovem nesse mesmo hospital. Tenho que corrigir o que disse antes: a mãe dela não é a mulher mais corajosa que conheço, ela e sua filha são as mulheres mais corajosas que conheço.

E, assim, o meu maior presente de aniversário foi vê-la sentada e sorrindo, brindando os meus 32 anos!

Até a próxima!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sem a tua companhia

“A minha alma chorou tanto
que de pranto esta vazia
Desde o dia em que fiquei
sem a tua companhia”

Na sua companhia, ela já viveu as mais diversas situações: em algumas, foram momentos de intensa alegria, nos quais, como crianças, se julgaram eternos, e outras, de grande aflição, quando quase chegaram a pensar, devido a tanta dor e sofrimento, que nada mais valia a pena.
Mas que ele, sempre forte, conseguiu dominar e dar a volta por cima, pois sabe que a vida, independente das peças que possa nos pegar, foi feita para ser vivida. Entregar o ouro para o bandido, jamais, e ele – tão especial que é – sabe que esta é uma verdade maior. Não é à toa que os seus olhos, castanho-claros, e belos, sempre miram adiante, muito adiante, mesmo que nuvens escuras, vez ou outra, possam surgir no horizonte.
Ela procura nas pessoas com as quais convive, nas que cruzam o seu caminho e perguntam por ele, mas nada preenche o vazio. Na imaginação, no corpo e na mente, o rosto dela olha pra ele e lhe faz companhia. É a presença que se sente, mas não se pode tocar e é compensada, substituída, completada, pela certeza de que ele vai voltar.